LITERATURA INFANTIL

CHARLES PERRAULT – O PAI DA LITERATURA INFANTIL

Débora Böttcher

Débora Böttcher

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]
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O Google hoje nos lembra do 338º aniversário do escritor Charles Perrault – nascido em 12 de janeiro de 1628 em Paris -, um mestre da Literatura Infantil.


Perrault

Ilustrações de Sophia Diao, para o Google


A primeira coleção de Contos Populares, de Fadas e outros, data do século XVII, escrita pelo napolitano Giambattista Basile, intitulada O Cunti de Le Cunti (1634).

Mas o divisor de águas da Literatura Infantil, foi o livro de Charles Perrault, Contes de Ma Mère l’Oye (Contos de Mamãe Gansa), quando o Conto de Fadas assume papel característico – e, durante muito tempo, indisputável.

Contos_Charles

A história pioneira

Além desta, histórias como Chapeuzinho Vermelho, O Gato de Botas, Pele de Asno, O Pequeno Polegar, O Barba Azul, Cinderela (ou A Gata Borralheira) e As Fadas,  abriram caminho para todo o mundo de seres e reinos encantados, que, emergindo da memória abafada dos Mitos e das Lendas, se multiplicaram em letras em todas as línguas e regiões, maravilhando a inocência e a imaginação infinita das crianças.

Ainda no século XVII, verificou-se o início das ilustrações dos livros infantis, complemento que, com o tempo, passou a se fazer indispensável, e em processo de gradual valorização da imagem, chegaria, no século XX, a lhe sacrificar os recursos da palavra.  O pioneiro, nesse campo, foi o pedagogo tcheco Amos Comenius, com O Mundo dos Sentidos Pintados, publicado em 1654.

Charles Perrault iniciou sua trajetória cursando direito, tornou-se conselheiro do Rei Luís XIV e, somente a partir de 1695, aos 62 anos, quando perdeu seu posto como secretário do Reino, passou a contar para todos as histórias que ouvira de sua mãe e sapateavam pelas ruas da França.

O pioneiro livro “Contos de Mamãe Gansa” foi publicado em 11 de janeiro de 1697, e estabeleceu ali a gênesis dos contos de fadas, a base para o gênero dos contos de fadas que conhecemos hoje, dando um fim literário a estas histórias – muitas das quais ganharam adaptações para o cinema.


Breve Biografia

Charles_Perrault

Charles Perrault

Perrault nasceu em uma família da alta burguesia, e formou-se advogado, em 1651, com apenas 23 anos de idade. Três anos depois, tornou-se assistente de Colbert, famoso conselheiro do Rei Luís XIV. Em seguida, virou superintendente das obras públicas do Reino. Em 1671, tornou-se membro da Academia Francesa de Letras.

Lá, foi um dos integrantes da longa disputa intelectual chamada Querela dos Antigos e dos Modernos. Os Antigos eram um grupo que defendia a superioridade de conteúdos feitos pelos greco-romanos, e os Modernos, grupo do qual Perrault fazia parte, tinham como “preferidas” as obras francesas. Apesar de bastante ativo nesta área, o escritor somente fez sua principal obra bem depois dessa época.

Antes disso, porém, já era um célebre autor, conhecido pelos seus poemas galantes, preciosamente escritos. Escreveu, por exemplo, uma coletânea poética intitulada Le Miroir (O Espelho) ou A Metamorfose de Orante e La Chambre de Justice d’Amour (A Câmara da Justiça do Amor). Em 1653, publicou um poema burlesco, Les Murs de Troie (Os Muros de Troia), em que atacou enfaticamente a antiguidade.

Casado com Marie Guichon, Perraut teve quatro filhos – Charles Samuel, Charles, Pierre Darmancour e uma menina cujo nome não se sabe, porque não há documentos a seu respeito. Após apenas seis anos de casamento, sua esposa faleceu de varíola. Ele, por sua vez, viveu até os 75 anos, vindo a falecer em 16 de maio de 1703.


O efeito Perrault / Disney  das Adaptações – * Gustavo Bernardo

O adaptador, tanto faz se escritor de renome ou não, esconde-se atrás do autor clássico que adapta. Sua intenção, como todas as intenções, é boa: homenagear um grande autor, divulgando-o para jovens leitores, que de outra forma não conheceriam os clássicos.

Cinderela

Cinderela, Desenho da Disney para a história de Perrault

Bons também são os propósitos dos professores que adotam adaptações: apresentar a seus jovens alunos uma suma, uma condensação que eles possam ler, dos grandes nomes e das grandes obras da cultura humana.

Mas não se percebe aí uma contradição? Ler o grande na forma pequena não impediria a compreensão do verdadeiramente grande? Toda adaptação implica, é óbvio, uma seleção subjetiva e arbitrária do que pode e do que não pode ser contado.

Esta seleção contém critérios que não são, nem o poderiam ser, discutidos e acordados com os leitores, que  podem nem ter nascido, e muito menos com os autores, que certamente já faleceram. Toda adaptação implica, portanto, um exercício de tesoura, em palavras mais claras, um exercício de censura, sobre o texto do autor que se homenageia.

Ora, mas a intenção é nobre, diriam adaptadores e professores. Só que os censores oficiais, das ditaduras mais ou menos disfarçadas, ainda que bem menos cultos, se justificam de maneira semelhante. O argumento de que só através das adaptações as crianças podem ser apresentadas aos clássicos, é falacioso – na verdade, elas são apresentadas a adaptações.

O problema torna-se mais grave quando vemos adultos imaginando terem lido Dom Quixote, Alice no País das Maravilhas, Odisséia, Hamlet ­ quando leram tão somente fragmentos, partes destas obras.

O procedimento de censura nobre não é novo -­ Charles Perrault, no século XVII, adocicava, embelezava, esteticizava Contos Populares, para agradar aos novos salões burgueses, e seu melhor correspondente, nos dias de hoje chama-se Walt Disney (e tudo que representa esse nome).

As suas adaptações para o cinema dos Contos de Fadas (belas, temos de reconhecer) modificam radicalmente, sem cerimônia, os enredos básicos, sempre na direção de apresentar finais felizes e escamotear tensões e contradições –  ­ basta lembrar do filme A Pequena Sereia, baseado no tristíssimo conto de Hans Christian Andersen, e do seu final glorioso para a personagem.

Walt Disney, entretanto, transforma uma linguagem em outra, e esse é o seu álibi principal. Há uma nova autoria nos filmes, sobreliterária ­ cinematográfica. Seu sucesso deriva tanto da extrema competência nesse aspecto, quanto das soluções conservadoras, escamoteantes, dos enredos.

O mais ousado de todos, O Corcunda de Notre Dame, história que escandalizou o século XIX, não ousa o suficiente para casar a bela cigana Esmeralda com o disforme Quasímodo – deficientes físicos em geral, contentem-se com o carinho das criancinhas!

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Quasímodo – o Corcunda de Notre Dame, Desenho da Disney para a história de Victor Hugo

[**] Quem se emociona com a estranha figura de Quasímodo, o herói corcunda, manco e vesgo, surdo de tanto tocar sinos na Catedral de Notre Dame, talvez não saiba que, antigamente, figuras estranhas assim não podiam ser heróis: esse era um papel de belos príncipes.

Foi o escritor francês Victor Hugo (1802-1885), o criador de Quasímodo, personagem principal do romance “Notre Dame de Paris”,  quem mudou tudo, causando grande escândalo na época.

Então os romances ganharam histórias antes impensáveis, com mendigos, ciganos (como Esmeralda), gente assustadora como o morador da torre da catedral de Paris, virando heróis. [**]

O efeito Perrault-Disney é mais grave nas adaptações de Literatura para Literatura. Há, por exemplo, várias adaptações de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e nenhuma delas enfrenta os seus paradoxos lógicos, cerne do enredo. O episódio, com desenho do próprio Carroll, em que Alice cresce, diminui, cresce, diminui, até se deformar numa menina de cabeça enorme e corpo pequenininho, é emblemático do dilema das adaptações de clássicos literários.

As boas intenções racionais, resumidas na expressão “Ler os Clássicos”, escondem desideratos de censura e controle, quer do imaginário quer dos infantes (dos que não têm fala). As boas intenções racionais incham a cabeça para esconder um corpo (conjunto de desejos e contradições, dramas e tensões) mutilado e atrofiado. As boas intenções escondem, usualmente, traições. E traições são problemas éticos, permitindo-nos discutir, um pouco, a moral que nos envolve e forma, enquanto lemos, escrevemos, criticamos, ensinamos, e… “adaptamos”.

* Gustavo Bernardo é professor de Teoria da Literatura na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autor, entre outros, dos romances infanto-juvenis Pedro Pedra, editora Lê (1986), e A Alma do Urso (1999).


[**] Adendo: Débora Böttcher

Débora Böttcher

Débora Böttcher

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]

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