CINEMA

COLONIA

Débora Böttcher

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]
Débora Böttcher

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Em tempos obscuros em nosso País, Colonia, filme sobre a ditadura militar no Chile, nos mostra o que um golpe pode acarretar a uma sociedade.

Lá, em 1973, em meio ao golpe de estado que derrubou o Presidente eleito Salvador Allende e possibilitou a ascensão do ditador Augusto Pinochet, as massas estão nas ruas protestando – entre eles, um casal alemão, a aeromoça Lena (Emma Watson) e o fotógrafo Daniel (Daniel Brühl).

Quando o rapaz é levado pela polícia secreta de Pinochet, Lena procura por ele e descobre que está em um lugar chamado “Colonia Dignidad”, uma suposta missão de caridade dirigida por um pregador, que é, na verdade, uma prisão para onde são levados os ‘desaparecidos’, e de onde apenas cinco pessoas escaparam – em 40 anos.


No Chile, nas eleições de 1970, Allende obteve a vitória com 36,2% dos votos, contra 34.9% de Jorge Alessandri, o candidato da direita, e 27.8% do terceiro candidato, Radomiro Tomic, cuja plataforma era similar à de Allende, que propunha transformar o Chile em um regime socialista, mas pela chamada “via chilena ao socialismo”, naquilo que foi qualificado de estilo “empanadas e vinho tinto” – por meios pacíficos, democráticos, assegurada a liberdade de imprensa e respeitada a constituição. Foi inicialmente bem vista por parte dos aderentes da Democracia Cristã, que também se envolviam em processos reformistas como a reforma agrária.

Mas o apoio inicial refletido em uma parcela de 49% dos votos na eleição municipal de 1971, se perdeu paulatinamente com a deterioração da situação econômica.

Em  Agosto de 73, a Marinha e a Força Aérea começaram a preparar o golpe de estado contra o governo de Allende.

No dia 10 de setembro, Allende foi alertado cerca das 7 da manhã sobre a iminência da queda e tentou localizar Pinochet, que até pouco tempo era seu colaborador e membro de seu gabinete – o que foi impossível e o fez pensar que Pinochet estivesse preso.

Mas às 8h42, as rádios Mineria e Agricultura transmitiram a primeira mensagem da Junta Militar, dirigida por Pinochet, Leigh, Mendoza e Merino, solicitando a Allende a entrega imediata de seu cargo e a evacuação imediata de La Moneda, ou seria atacado por tropas de ar e terra. Nesse momento, as tropas de Carabineros cercando o Palácio se retiraram.

Às 18 horas de 11 de Setembro, os líderes do pronunciamento se reúnem na Escola Militar, assumindo como membros da Junta Militar que governará o país, e decretam o “estado de guerra”, incluindo estado de sítio.

Allende decide continuar no Palácio, enquanto chegam os primeiros tanques ao Bairro Cívico, enfrentando-se a franco-atiradores leais ao governo. A CUT chama à resistência nos bairros industriais, enquanto o Presidente decide dar uma última locução:

“Colocado em uma transição histórica, pagarei com minha vida a lealdade do povo. E os digo que tenho a certeza de que a semente que entregaremos à consciência de milhares e milhares de chilenos não poderá ser cegada definitivamente. Trabalhadores de minha Pátria! Tenho fé no Chile e em seu destino. Superarão outros homens nesse momento cinza e amargo onde a traição pretende se impor. Sigam vocês sabendo que, muito mais cedo que tarde, abrir-se-ão de novo as grandes alamedas por onde passe o homem livre, para construir uma sociedade melhor.
Salvador Allende, 11 de setembro de 1973

Allende ordena a evacuação do prédio, mas se mantém no Palácio. Segundo o testemunho de seu médico pessoal, Allende disparou com uma metralhadora contra seu queixo, cometendo suicídio. Porém, há aqueles que não acreditam até hoje nesse depoimento e nem na autópsia que seria feita em 1990 e que supostamente confirmaria esse testemunho. Para muitas pessoas Allende foi sumariamente executado.

Fonte: Opera Mundi

Como sempre, é perturbador para mim o embate de mais uma vez a religião estar como fachada para a brutalidade desmedida. E estar de cara com o que se faz em nome de Deus promove em mim a certeza de que, definitivamente, Deus só pode ser um delírio, um escudo humano para justificar a barbárie.

Está aí a realidade nos dias de hoje que não me deixa mentir. Em nome de Deus continuam a exaltar ditadores, a espalhar preconceito, a disseminar o que há de pior no ser humano. E não canso de ver gente que se diz devota do bem, mas na prática… Bem, não me cabe julgar.

Surpreendente também foi ver a Embaixada Alemã trair cidadãos que deveria proteger. Como se vê, esse espécime, da pior estirpe, está em toda parte.

Um filme triste de ver, mas necessário especialmente para aqueles que não viveram a ditadura e, muitas vezes, acham que ela é uma invenção das pessoas mais velhas. Tempos tenebrosos existiram praticamente no mundo inteiro, e não se pode ignorar que muitos ainda tem a gana de calar a sociedade, de colocá-la à margem, de proibir, cercear, encarcerar a liberdade e a expressão.

É preciso ter cuidado com o que defendemos – porque depois, dizer que não sabia, não convence nem redime.


Sobre a Colonia Dignidad, leia mais aqui.



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Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]

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