CRÔNICAS

CONSIDERAÇÕES FINAIS – Carlos Heitor Cony

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A foto do fotógrafo Lucas Landau para a agência Reuters do menino na praia de Copacabana olhando os fogos durante a virada de 2018, causou reflexões e suscitou opiniões e elocubrações no mundo todo.

Viralizado, o retrato serviu como espelho de como interpretamos situações simples do cotidiano, gerando muitas críticas e análises, para tentar explicar o que cada um entende da vida de acordo com sua bagagem de vivência e aprendizado.

Mas, obviamente, não é possível dar um significado único para a imagem – que tem um poder inalcançável -, muito menos mensurar sobre quem tem razão.

Nessa onda, o Fantástico lembrou da crônica de Carlos Heitor Cony, que morreu na semana passada (05/01/2018), escrita em Dezembro de 2010 (portanto, para a virada de 2011). Na voz de Pedro Bial, foi lido um pequeno trecho no programa (a partir de “Muitos anos atrás, disseram para um menino que no dia 31 de dezembro…”)

O texto, com a acidez pessimista de Cony, dimensiona e simplifica a cena, com uma sensibilidade visionária, como se fosse possível vislumbrar o/um menino (que provavelmente é o próprio autor) muitos anos antes dele ser clicado – e que seria perfeito para ilustrar seu texto.

Aqui, compartilhamos a crônica para que você se delicie e tire suas próprias conclusões…


CONSIDERAÇÕES FINAIS – Carlos Heitor Cony

Por segurança, sempre gosto mais dos anos que acabam.
Os que chegam trazem um saco vazio.

E EIS que entramos em mais um ano do Senhor. Bom, todos os anos que já passaram foram do Senhor, e na realidade, os pecados e os crimes dos homens e das mulheres só fizeram o Senhor ficar arrependido de sua criação.

Há tempos, esse mesmo Senhor tão logo percebeu que os filhos de Adão passaram a cobiçar as filhas de Eva, tratou de abrir as cataratas do céu com um dilúvio que durou 40 dias e 40 noites e do qual só se salvaram o justo Noé e os animais, um casal de cada espécie.

Mas esse Noé, apesar de justo, ou por isso mesmo, foi embebedado por suas filhas, prevaricou logo após o dilúvio e sua descendência deu no que deu, essa cambada de calhordas da qual fazemos parte. (Nesse trecho tem uma Errata da Folha – que, de toda forma, não interfere na narrativa: “Diferentemente do que diz a coluna “Considerações Finais”, foram as filhas de Ló, e não as de Noé, que embebedaram o pai e com ele tiveram descendentes (Gênesis, 19)”.

De acordo com os otimistas, lojas, bancos e entrevistados na TV, o ano que chega deve ser melhor do que o outro que se vai. Por uma questão de segurança, sempre gosto mais dos anos que acabam. Os que chegam trazem um saco vazio, é certo, mas esse saco em alguns poucos meses vai ficando cheio. Termina como sempre, enchendo o saco de todos.

Ao passo que o ano que se vai, apesar do saco cheio, ao menos nos deixou com vida e com a esperança de um ano realmente próspero. Desde que nasci, me embromaram com a prosperidade de um novo ano. Se até hoje não prosperei na vida e no mundo não foi por falta de votos. Como nada me custa, também desejei prosperidade aos outros.

Para um cronista em dia de Ano-Novo, cabem perfeita e adequadamente dois assuntos: malhar o ano que se vai e saudar com evoés e alvíssaras o ano que chega. Não farei nem uma coisa nem outra. O ano de 2010, feitas as contas, e olhando tudo em conjunto, não foi tão ruim assim. Crises políticas, crises econômicas, crises no tráfego aéreo e no tráfico de drogas, isso é da vida. Não houve guerra mundial, invasão de extraterrestres e transbordamento dos oceanos, a camada de ozônio ainda funcionou e a humanidade, se não melhorou, pelo menos ainda não acabou.

O que acabou foi o Complexo do Alemão embora o complexo de Édipo ainda funcione, quase 60 milhões de brasileiros votaram numa mulher para presidente da República. Se não der certo, a culpa é do Freud e do Lula. Para 2011, as perspectivas são mais ou menos sombrias, mas vamos meter os peitos. E peitos não nos faltam nesses tempos de silicone. E como disse o Mestre, as mulheres não devem chorar por Ele, mas sobre seus pecados.

Muitos anos atrás, disseram para um menino que no dia 31 de dezembro, à meia-noite em ponto, se ele olhasse o céu com vontade, veria um velhinho, encarquilhado, triste, em farrapos, indo embora para sempre. E, em seu lugar, apareceria um bebê gorducho e risonho, trazendo todas as promessas de uma vida nova.

O menino acredita até hoje nesta visão, fica olhando a noite que avança sobre o mundo. Nunca viu o velho indo embora nem o bebê chegando. “Por que inventam essas histórias?”, pergunta sempre a si mesmo.

Reparava que nas ruas, em todas as casas, havia luzes, soltavam fogos, todos comemoravam o ano novo que se abria para cada um. O menino desistia de ficar triste, mas sempre descobre que o ano novo não está lá em cima, no espaço da noite, mas dentro dele mesmo.

Teria agora um novo ano para realizar seus sonhos, dia após dia, ele faria renascer a confiança em suas pequenas vitórias, provando a alegria de quase nada, de tentar merecer um futuro. De certo modo, o menino se sentia o próprio ano novo que chegava, com a mensagem de uma certeza que ele ainda não sabia o nome, mas tinha o gosto e a força da esperança.

Que venha 2011. Não adianta imaginar uma odisseia no espaço, como nos filmes de ficção científica, formidáveis máquinas espaciais voando no infinito ao som do “Danúbio azul”. Isso ficará para os astronautas e para os efeitos especiais dos filmes em 3D.

Nós outros navegaremos em nossa própria órbita, sujeitos aos mil acidentes da carne e do trânsito, encarando o cotidiano como um desafio heroico que transferimos para o dia seguinte, ou para o ano seguinte que nos traga a única prosperidade que realmente desejamos, a de continuarmos vivos, sabe-se lá de que modo.

Publicada originalmente em 31/12/2010 no Jornal Folha de SP

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