CRÔNICAS

DELICATESSEN, HILDA HILST

Débora Böttcher

Débora Böttcher

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]
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Não sei se já falei aqui, mas quando a escritora Hilda Hist escrevia para o jornal Correio Popular, em Campinas, eu trabalhava lá e sempre me surpreendia com suas crônicas – publicadas sempre às segundas-feiras, entre 1992 e 95, uma experiência literária “muito diferente”, nas palavras da própria autora.

Hilda Hilst

Foram três anos de contribuição semanal para o então recém-criado Caderno C, montante que foi reunido no livro Cascos & Carícias em 1998 e hoje está, junto a alguns textos inéditos, no volume Cascos & Carícias & Outras Crônicas, relançado em 2001 pela editora Globo Livros, mas não encontrável para compra exceto em sebos, infelizmente.

Ela sempre teve uma escrita direta, sem meias palavras, mas mesmo alguém com tanta desenvoltura e olhar franco,  ainda pode se surpreender diante do ser humano – o que nos remete a outro escritor de mente sem rodeios, Nelson Rodrigues, que certa vez escreveu:

O ser humano é o único que se falsifica. Um tigre há de ser tigre eternamente. Um leão há de preservar, até a morte, o seu nobilíssimo rugido. E assim o sapo nasce sapo e como tal envelhece e fenece. Nunca vi um marreco que virasse outra coisa. Mas o ser humano pode, sim, desumanizar-se. Ele se falsifica e, ao mesmo tempo, falsifica o mundo.

É exatamente o que Hilda transcreve nesse texto, com uma escrita tão sincera, sem intervalo, e tão impactante e irreverente – como é da sua natureza.

Leia e tire suas conclusões…


DELICATESSEN, HILDA HILST

Você nunca conhece realmente as pessoas. O ser humano é mesmo o mais imprevisível dos animais. Das criaturas. Vá lá. Gosto de voltar a este tema. Outro dia apareceu uma moça aqui. Esguia, graciosa, pedindo que eu autografasse meu livro de poesia, “tá quentinho, comprei agora”. Conversamos uns quinze minutos, era a hora do almoço, parecia tão meiga, convidei-a para almoçar, agradeceu muito, disse-me que eu era sua “ídala”, mas ia almoçar com alguém e não podia perder esse almoço. Alguém especial?, perguntei. Respondeu nítida: “pé-de-porco“. Não entendi. Como? “Adoro pé-de-porco, pé-de-boi também”. Ahn… interessante, respondi. E ela se foi apressada no seu Fusquinha. Não sei por que não perguntei se ela gostava também de cu de leão. Enfim, fiquei pasma. Surpresas logo de manhã.

Olga, uma querida amiga passando alguns dias aqui conosco, me diz: pois você sabe que me trouxeram uma noite um pé-perna de porco, todo recheado de inverossímeis, como uma delicadeza para o jantar? Parecia uma bota. Do demo, naturalmente. E lendo uma entrevista com W. H. Auden, um inglês muito sofisticado, o entrevistador pergunta-lhe: “O que aconteceu com seus gatos?” Resposta: “Tivemos que matá-los, pois nossa governanta faleceu”. Auden também gostava de miolo, língua, dobradinha, chouriços e achava que “bife” era uma coisa para as classes mais baixas, “de um mau gosto terrível”, ele enfatiza.

E um outro cara que eu conheci, todo tímido, parecia sempre um urso triste, também gostava de poesia… Uma tarde veio se despedir, ia morar em Minas… Perguntei: “E todos aqueles gatos de que você gostava tanto?” Resposta: “Tive de matá-los”. “Mas por quê?!” Resposta: “Porque gatos gostam da casa e a dona que comprou minha casa não queria os gatos”. “Você não podia soltá-los em algum lugar, tentar dar alguns?” Olhou-me aparvalhado: “Mas onde? Pra quem?” “E como você os matou?” “A pauladas”, respondeu tranqüilo, como se tivesse dado uma morte feliz a todos eles.

E por aí a gente pode ir, ao infinito. Aqueles alemães não ouviam Bach, Wagner, Beethoven, não liam Goethe, Rilke, Hölderlin (?????) à noite, e de dia não trabalhavam em Auschwitz?

A gente nunca sabe nada sobre o outro. E aquele lá de cima, o Incognoscível, em que centésima carreira de pó cintilante sua bela narina se encontrava quando teve a ideia de criar criaturas e juntá-las?

Oscar, traga os meus sais.


Crônica de Hilda Hilst para o Correio Popular de Campinas, SP – Segunda-feira, 1 de março de 1993


Débora Böttcher

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Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]

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