MÚSICA

KLEBER ALBUQUERQUE | A MÚSICA BRASILEIRA AINDA É

Carla Dias

Carla Dias

Autora de "Estopim", "As Asas da Borboleta", "Jardim de Agnes", "Os Estranhos" e "Azul", além de participação com contos e crônicas em mais quatro coletâneas - entre elas, "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde ainda escreve às quartas-feiras.Trabalha como Produtora de Eventos junto à baterista Vera Figueiredo [IBVF Produções]. Vive em São Paulo.
Carla Dias

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Kleber_Albuquerque

Kleber Albuquerque

Toda vez que escuto uma pessoa dizer – e naquele tom de lamento profundo – que a música brasileira já era, me vem ao pensamento muita gente boa fazendo ótima música. Obviamente, essa pessoa se refere à música popular brasileira, muito festejada pela combinação de música e poesia.

Sim, o fazer artístico conta também com quem não sabe fazê-lo, mas cai no gosto popular. Até aí, tudo certo. Tentar ganhar espaço é direito de todos nós, independente de quão talentosos somos para desempenhar o papel que desejamos conquistar.

Arrumei a casa, espanei o pó do peito
A tristeza, dei um jeito de escondê-la no capacho
Areei os olhos, me quarei lá no riacho
Tirei a roupa do tacho e botei tudo no lugar
Terça-feira, hoje eu acho que meu amor vai voltar
Da canção Espera

 

Discordo de que a música brasileira perdeu a sua originalidade. Credito essa sensação a certa preguiça do ouvinte em buscar opções que não estejam disponíveis nas listas de hits da semana, no programa de tevê preferido, na playlist daquele site super frequentado. Deixar o mercado escolher por você é a pior coisa a se fazer, principalmente quando se busca mais do que a repetição de sucessos. Aliás, deixar que qualquer ferramenta mercadológica ou outra pessoa faça escolhas por você é viver no raso de si mesmo.

Quando penso em pessoas fazendo música brasileira de primeira, esse artista me vem à mente. Não apenas porque é um amigo muito querido, de quem acompanho a carreira, desde sempre, e adoro a obra. Aprendi, nesses anos todos acompanhando o fazer artístico de Kleber Albuquerque, que tão interessante quanto sua música é a forma como as pessoas se deslumbram por ela, assim como são conquistadas, de imediato, pelo carisma do artista, que devo dizer é legítima, não funciona somente no palco.

Não é a primeira vez que escrevo sobre Kleber e suas canções. Ainda assim, há sempre o frescor do momento, de como a capacidade dele em fazer canções emblemáticas – sem pensá-las com essa função – flui naturalmente.

Olho que não fecha
Espera o dia
Entrar pela brecha da veneziana
Sono que não chega
Noite que não cessa
Dia que só dá a luz
Com cesariana
Da canção Parede-meia

 

A criatividade é o que lhe endossa como artista. A música é sua guia, a poesia está lá – o poeta a postos. Porém, Kleber tem a capacidade de ser criativo em diversos aspectos. Como os shows intimistas que vem produzindo.

Eu já tinha assistido a dois shows dele na sala de sua casa. Não foi somente a reunião de várias pessoas na sala da casa de alguém. Tinha cenário, tinha produção, era show com repertório escolhido para acolher os apreciadores de sua música e fisgar os que faziam sua primeira viagem. Era show para qualquer casa de show que o recebesse.

Sábado passado, fui a outro show inusitado. Desta vez, foi no quintal. A criatividade do artista vai além. Fico sempre muito impressionada com nomes de canções e shows, assim como de projetos de sua autoria. Kleber Albuquerque | Cantando no Quintal foi show acontecido no Teatro Imaginário da Fábrica de Caleidoscópios. Foi show belamente acontecido, que nem mesmo a chuva ou o frio conseguiu atrapalhar. Tão importante quanto seu talento e sua obra, é que Kleber faz questão de se aproximar de seu público, de envolvê-los no processo de criação de alguns projetos. Neste dia, os presentes gravaram trechinhos dançando ou cantando a música Ela Tem Fogo. Esse material servirá para a criação do vídeo para a obra, que faz parte do último disco que lançou, 10 Coisas Que Eu Podia Dizer No Lugar De Eu Te Amo.
Mágoa é água parada
É água parada
Lágrima: água com navalha
Migalha de mar
Da canção Vazante

 

As letras das canções de Kleber Albuquerque poderiam ser lidas em um livro, feito poema, na crueza do seu sentido. O artista é plural e tem um público cativo, aqueles que cantam suas canções feito backing vocals, que escolhem suas canções para expressar sentimentos próprios aos outros, que deixam escapar desejos como “eu queria ter escrito essa canção” ou “parece que essa canção foi escrita para mim”.

Eu poderia escrever sobre todas as canções de Kleber Albuquerque que me tocam profundamente, e que, por várias vezes serviram de trilha sonora para os meus escritos. Porém quero que vocês aproveitem a viagem que é essa descoberta. Ele é um artista de uma leva que vem fazendo um trabalho bonito, que vale a pena se conhecer.

Aqui fica minha sugestão para que as pessoas que apreciam música conheçam algo novo. Também para que aquelas que dizem que a música brasileira já era, possam começar a perceber que não, ela não era. A música brasileira ainda é… Graças a artistas como Kleber Albuquerque.

SoundCloud | kleberalbuquerque
Twitter | kleberalbuquer

Carla Dias

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Autora de "Estopim", "As Asas da Borboleta", "Jardim de Agnes", "Os Estranhos" e "Azul", além de participação com contos e crônicas em mais quatro coletâneas - entre elas, "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde ainda escreve às quartas-feiras. Trabalha como Produtora de Eventos junto à baterista Vera Figueiredo [IBVF Produções]. Vive em São Paulo.

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