HIPERBREVES

LUTO

Yolanda S. Meana

Jornalista e escritora.
Yolanda S. Meana

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Pegou do armário o pretinho básico que guardava para as ocasiões especiais, as luvas de pelica, um discreto chapéu de aba curta, e uns sapatos elegantes e confortáveis. Dispôs tudo no sofá, e foi dormir. Amanheceu antes que o próprio dia e, após um café da manhã frugal, dedicou um bom tempo a se arrumar. Acentuou a palidez do rosto, ressaltou o tom escuro da olheira, e não colocou batom. Ante o espelho, ensaiou o gesto de tristeza, o sorriso enigmático e circunspecto, o olhar úmido. Já vestida, e com o semblante compungido, os vizinhos a viram sair do portal e chamar um táxi. Desceu no cemitério. Sentiu o cheiro da dor. Viu anjos de pedra a velar o silencio. Seguiu em frente até divisar o cortejo. Ouviu o responso do padre. Palpou no ar a solidão da viúva. Na hora dos pêsames, acercou-se a ela: “Eu sou a outra”, disse-lhe. Lembrou-se do refrão espanhol “dor de cotovelo e de viuvez dói muito, mas dura pouco”. “O desta vai durar é nada”, pensou com a satisfação do dever cumprido. 
| Yolanda Serrano Meana |

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