REFLEXÃ0

MINAS ESTÁ SANGRANDO

Ana Claudia Vargas

Viver é uma experiência bem confusa, mas, por vezes, bacana (palavra inapropriada, mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã, mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer...
Ana Claudia Vargas

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Minas está sangrando, as veias dessas montanhas estão abertas e sangram… Esse sangue que desce pelas encostas é só o resultado do que estão fazendo com as terras mineiras desde que essa região por acaso situada no sudeste do Brasil passou a se chamar Minas Gerais.

Esse estado que deve seu nome às minas que existem nas funduras de suas entranhas, esse minério que enriquece poucos e destrói a vida dos muitos que trabalham nas minas ou vivem perto das minas (quem em Minas não vive perto de uma?). A natureza desses lugares há muito vem sendo devastada e nunca se fez nada para impedir isso porque a ganância é e sempre foi maior. Esse não é o primeiro acidente causado por mineradoras, essas não são as únicas vítimas, mas bem que poderiam ser as últimas. Quantos ainda terão que morrer, perder suas casas e suas memórias para que o governo mineiro faça algo para preservar o meio ambiente das Minas Gerais?!

Sabemos que tudo isso não comove os homens públicos nem os executivos das empresas que ontem estavam preocupados somente com a queda das ações da empresa (que sangrou a montanha) na bolsa de valores. Em momentos de dor tão grande só mesmo a delicadeza de um poema pode dizer o que todo o resto não consegue. É por isso que deixo aqui esse que foi escrito por Ana Maria Vargas Pedroso (mineira) e lembro que, há muito tempo, outro mineiro chamado Carlos Drummond já mostrava sua tristeza diante dessa triste sina das Minas Gerais: ter suas entranhas devastadas, ter a vida da sua gente devastada.


Alberto_Delpino_-_Panorama_de_Mariana (1)-2

A idílica Mariana pintada em 1895 por Alberto Delpino (Imagem: domínio público)


Mariana

Carlos, você pode ver?

A barragem se rompeu e a lama cobriu a cidade
Não é de ouro nem ferro.
Ainda não se pode contar quantas casas,
Quantas Marias, entre lágrimas, perguntam:
“E agora, José? a luz apagou, o povo sumiu…”
Cadê cidade que se via do alto da montanha?
Montanha não há mais, José!
Veja como são fundas, muito fundas
Essas crateras abissais.

O que resta agora é um rio escuro e barrento
A preencher o vazio que a máquina deixou.
Quanto vale a paisagem que se perdeu?
Quanto vale a vida sufocada, enlameada,
…Perdida

Responda, José!
Quanto VALE?
Talvez se subir ao Pico do Cauê,
Lá do alto se veja Mariana, menina bonita,
Passeando entre vales e montanhas.

– Carlos, veja, pico não há!
Bem que você avisou.
“Quer ir para Minas,
Minas não há mais.”
E agora, Carlos?

“E agora, José?”

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