CRÔNICAS

NOBRE OU VULGAR?

Fernanda Pinho

Há quem escreva para ser lembrado. Eu escrevo para me lembrar.
Fernanda Pinho

Últimos posts por Fernanda Pinho (exibir todos)

nobreouvulgarO que ainda não foi dito sobre o amor? O próprio questionamento sobre o que ainda não foi dito sobre o amor já não soa sem desgaste. De filósofos gregos a sertanejos universitários, quantas vezes ele, o amor, foi elevado ao status de mais nobre dos sentimentos? Se não me engano, eu mesma, quando estava na quarta série, escrevi um poema chamado “O mais nobre dos sentimentos” que falava, obviamente dele, do amor. Da menina que só conhecia o amor dos pais – e nem aquele tinha condições de mensurar – à mulher que já amou profundamente, nunca questionei. É nobre. O mais nobre, diga-se.

Convicção abalada dias desses, ouvindo uma música de Nando Reis que eu já havia escutado várias vezes sem tomar a devida atenção. “O amor não vê nobreza. É tão vulgar, qualquer um”. Dez palavras. Apenas dez palavrinhas botando por terra uma crença de vida inteira. Nando Reis é coisa séria. Não duvido do que esse homem fala de amor e, por Deus, como não pensei nisso antes? Como considerar nobre um troço que chega para qualquer um – QUALQUER UM (de filósofos gregos a sertanejos universitários) – em qualquer hora, em qualquer lugar, sem convite, cerimônia, RSVP, confirmação de presença, nada! O que tem de nobre nisso? Comportamento assim arrepiaria os cabelos de um autêntico sangue azul. É vulgar, qualquer um.

 Qualquer um é gente demais. Qualquer é todo mundo. E, sim, qualquer um, gente demais, todo mundo pode bater o olho em outra pessoa numa situação banal, sentir um negócio no peito e sentenciar pra si mesmo: “Tô lascado”. Mas e depois? O depois é que complica, ruivão. Não me olhe com essa cara. Sei que nosso caso é antigo, mas estou em vias de discordar de você pela primeira vez em centenas de músicas e virar a casaca para a nobreza do amor outra vez.

O vulgar é primo-irmão do covarde. Não aguenta o tranco. Tem que ser muito nobre pra depois do “tô lascado” bancar o outro. Assumir que o amor já está instalado no seu quintal e abrir a porta pra ele entrar pra dentro de casa e bagunçar tudo. Haja nobreza para entender que em cima do muro é um lugar que não existe. Que amor é vai ou racha, que tem que escolher e renunciar. Se não for nobre não respeita, não perdoa, não compreende, não aceita, não fica em definitivo sem desculpa esfarrapada ou conversa fiada. E se não for assim, vamos combinar, não pode ser amor.

 É nobre.

Assunto encerrado até a próxima canção me atormentar.

Espalhe por aí...
Share on Facebook
Facebook
Tweet about this on Twitter
Twitter
Email this to someone
email

Fernanda Pinho

Fernanda Pinho

Há quem escreva para ser lembrado. Eu escrevo para me lembrar.

Deixe um recado

Veja os livros que amamos em BABEL SHOP