LITERATURA RESENHAS

O LIVRO DOS ABRAÇOS, Eduardo Galeano

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Eduardo_GaleanoO escritor uruguaio Eduardo Galeano é um dos meus autores preferidos. Jornalista, iniciou sua carreira na década de 60 como editor do Marcha, influente jornal semanal que também tinha como colaboradores Mario Vargas llosa e Mario Benedetti.

Foi em 1971 que escreveu sua obra mais conhecida,  “As Veias Abertas da América Latina”livro em que analisa a história da América Latina desde o período da colonização europeia até a Idade Contemporânea, argumentando contra a exploração econômica e a dominação política do continente – primeiramente pelos europeus e seus descendentes e, mais tarde, pelos EUA (exploração acompanhada de constante derramamento de sangue índio). Devido à exposição de eventos de grande impacto para conhecimento da história, o livro foi banido na Argentina, Brasil, Chile e também no Uruguai (sua terra natal) durante as ditaduras militares destes países. Em 2014 Galeano, em relação a este livro, afirmou que  ele não estava preparado à época para tratar de economia política e que o texto era ruim.

Mas o livro que mais gosto dele é “O Livro dos Abraços”, uma reunião de narrativas curtas que se alçam em sua memória pessoal. Ele se vale de pequenos momentos para contar histórias que sacodem os sentimentos, nos lembrando como as pequenas coisas se abraçam traçando a vida.

“A memória viva nasce a cada dia…”, ele dizia. Esse é um livro repleto de emoção e beleza, cheio de delicadezas, e igualmente denso. Suas histórias às vezes afagam, às vezes dilaceram. Tal como a vida…


Leia um dos textos do Livro:

 natalNOITE DE NATAL

Fernando Silva dirige o hospital de crianças, em Manágua. Na véspera do Natal, ficou trabalhando até muito tarde. Os foguetes esposavam e os fogos de artifício começavam a iluminar o céu quando Fernando decidiu ir embora. Em casa, esperavam por ele para festejar. Fez um último percorrido pelas salas, vendo se tudo ficava em ordem, e estava nessa quando sentiu que passos o seguiam. Passos de algodão: virou e descobriu que um dos doentinhos andava atrás dele. Na penumbra, reconheceu-o. Era um menino que estava sozinho. Fernando reconheceu sua cara marcada pela morte e aqueles olhos que pediam desculpas ou talvez pedissem licença. Fernando aproximou-se e o menino roçou-o com a mão: – “Diga para…” – sussurrou o menino -, “… diga para alguém que eu estou aqui.” | Eduardo Galeano | “O Livro dos Abraços”


E, abaixo, texto do livro “Palavras Andantes”

andantes

Ao anoitecer, o marido passa para buscá-la. E no caminho de casa vão os dois calados, respirando o veneno do ar, quando ela torna a vê-lo no turbilhão das ruas: esse corpo, essa cara que sem palavras pergunta e chama. E desde então, ela o vê com os olhos abertos, em tudo que olha, e o vê com os olhos fechados em tudo que pensa, e o toca com seus olhos. Este homem vem de algum lugar que não é este lugar e de algum tempo que não é este tempo. Ela, mãe de, mulher de, é a única que o vê, a única que pode vê-lo. Já não tem mais fome de ninguém, fome de nada, mas cada vez que ele aparece e se desvanece, ela sente uma irremediável necessidade de rir e chorar os risos e os prantos que engoliu ao longo de tantos longos anos, risos perigosos, prantos proibidos, segredos escondidos em quem sabe que cantos de seus cantos. E quando chega a noite, enquanto o marido dorme, ela vira de costas e sonha que desperta. | Eduardo Galeano | “As palavras Andantes”


Descanse em paz…

*03/09/1940 | #13/04/2015

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