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OSHO – O DOCUMENTÁRIO

Débora Böttcher

Débora Böttcher

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]
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Na web, muita gente compartilha as frases, pensamentos e ensinamentos de Osho – nome oficial Rajneesh Chandra Mohan Jain. No Instagram encontrei duas páginas com referências ao guru – oshobrasil e osho_oficial. Nas outras redes sociais não procurei. O perfil brasileiro, anuncia reuniões de meditação às quartas-feiras, com a primeira participação gratuita, na região dos Jardins, em São Paulo. Também há cursos  sobre o “Fluxo da Natureza”, em Uberlândia e Rio de Janeiro, junto a entidades parceiras.

Ma Anand Sheela and Bhagwan. Foto Netflix

Ma Anand Sheela and Bhagwan. Foto Netflix

Como agnóstica, sou pouco (ou zero) afeita a todo tipo de diretrizes místicas, de modo que sempre achei interessante a filosofia de suas palavras, mas nunca me interessei a fundo por sua pessoa ou representação.

Mas a Netflix produziu um documentário sobre a vida de Rajneesh que assisti por curiosidade – quando nada, documentários nos alimentam culturalmente, especialmente quando tratam de assuntos ou pessoas que desconhecemos e sobre as quais não temos nenhuma (ou pouca) informação.

Sob o título de “Wild Wild Country”, com direção dos irmãos Maclain e Chapman Way, descreve em seis capítulos a ascensão e queda da seita do indiano Bhagwan Sri Rajneesh (apelido inicial), no início dos anos 80, a partir de quando deixou a Índia, fugindo da indignação hindu por misturar os princípios da principal filosofia religiosa de seu país com uma doutrina utópica – e um pouco duvidosa -, que pregava o prazer como estilo de vida combinado a valores capitalistas, e se instalou nos Estados Unidos – mais precisamente no estado de Oregon.

Para não estar na ‘linha de frente’ dos assuntos administrativos, elegeu uma mulher para liderar as diretrizes da construção desse planejado império: Ma Anand Sheela, mais conhecida como Sheela, de personalidade irreverente, inteligente e à frente do seu tempo, se tornaria uma verdadeira dama de ferro na gestão e criação de uma nova comunidade nos EUA – uma propriedade de 60 mil acres comprada nos arredores da pequena Antelope.

O que eles não esperavam, era encontrar a resistência dos moradores da pacata cidadezinha de aposentados – e esses também não contavam com a reação que se seguiu. Num padrão de hostilidade muito comum aos que têm aversão por tudo que foge do tradicional, e travando uma batalha ferrenha para expulsá-los do lugar, os americanos viram emergir um contra-ataque que envolveu de armas de fogo a bioterrorismo para proteger Rashneeshpuram (como foi batizada a comunidade recém formada), e seus seguidores devotos – apelidados de “reds”, por se vestirem em tons de vermelho, mas nomeados de Sannyasyns que significa “retirado” da sociedade (para um hindu, um sannyasin é um homem que “renunciou ao mundo”).

Com vilanias de todas as cores e a temperatura subindo mais do que a kundalini dos devotos, vê-se todo tipo de  tramas de manipulação, envenenamento coletivo e tentativa de assassinato – tudo sob o manto da liberação sexual, da liberdade total de expressão em nome da alegria. Nesse caldo, ainda se seguiu fraude eleitoral, perseguições aéreas, acusações de traição e investigações do FBI – um enredo pra nenhum autor de novela botar defeito.

A combinação de narrativas por ex-membros do escalão mais alto do poder – as pessoas mais próximas de  Bhagwan (como Sheela, a assistente Deva Raj, seu advogado), com imagens da época – que cobriram grande parte dos eventos -, transformam o documentário numa espécie de thriller que, muitas vezes, deixa a duvidar que seja real, tamanha controvérsia e surrealismo de algumas situações – como o inacreditável enriquecimento da ‘organização’, com pessoas doando a ele tudo o que tinham para viver num lugar com regras absurdas sob o manto de uma normalidade incoerente (a começar por só se vestir de vermelho, laranja ou tons aproximados a essas cores, como rosa ou vinho).

Mas o que pregava Osho? Extraindo ideias de Sigmund Freud a Chuang Tzu, de Gandhi a Buda, de Jesus Cristo a Rabindranath Tagore, o Mestre, de saúde aparentemente frágil,  espalhava o que seria a essência do que acreditava ser significativo na busca espiritual do homem, baseando-se não apenas na compreensão intelectual, mas na sua própria experiência existencial.

Para os seguidores, seus ensinamentos levam à realização da liberdade pessoal, mas nessa percepção individual das amarras aprisionadoras das tradições e das autoridades estabelecidas, não percebem que impõe-se aí uma nova autoridade.

Embora Osho oficialmente nunca tenha escrito nenhum livro, 650 títulos em 57 idiomas foram criados e têm sido publicados a partir de transcrições de seus discursos e palestras.

Claro que essa é apenas uma versão sobre ele – e não a história inteira -, mas o que documentário nos mostra de maior valia, na minha opinião, são os muitos lados obscuros da humanidade – o que há de pior no ser humano, desde o preconceito, até o medo, a raiva, a inveja, o ódio, e de como o poder sempre corrompe. De como nossos sentimentos podem se tornar pequenos diante do que não entendemos, e de como somos arredios a mudanças.

Também para mim, avessa a religiões, é surpreendente ver como as pessoas podem sucumbir a uma ideia, deixando-a se instalar em suas mentes e corpos, tornando-as dependentes de sentimentos totalmente sem fundamento, ilusões e abstrações inventadas e alimentadas por uma crença absurda num universo acima de nós – que não existe de fato. Uma alienação da realidade – que pode não ser difícil de entender: todas as religiões alimentam essa aura e há no ser humano uma necessidade de que exista alguém que cuide dele, que lhe diga o que fazer, que lhe dê a sensação de o estar encaminhando a algum tipo de direção certa.

O que se pode concluir no final, quando os moradores de Antelope se vêem livres dos Rajneeshs e a propriedade é vendida para uma comunidade evangélica, é que não há nenhuma diferença entre esses novos ocupantes e os anteriores. O único problema parece ser que a confraria de origem indiana, na visão desses americanos que não sucumbiram a Osho, tinha um tipo de comportamento que não lhes era familiar. Portanto, nada novo debaixo do céu…

Assista ao trailler e não deixe de ver – tem muita coisa que não está contada nesse texto. 😉



 

Débora Böttcher

Débora Böttcher

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]

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