CRÔNICAS

PAIS E FILHOS

Débora Böttcher

Débora Böttcher

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]
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"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã..." (Pais e Filhos, Renato Russo)

Meu pai tinha o hábito de escrever cartas para nós, os filhos, que nunca entregava. Minha mãe, vez ou outra, encontra esses rascunhos perdidos em gavetas esquecidas – ele morreu há dezessete anos, num quatro de Julho.

"Estátuas e cofres / E paredes pintadas / Ninguém sabe o que aconteceu / Ela se jogou da janela do quinto andar / Nada é fácil de entender."

Há alguns anos, minha mãe trouxe-me um desses escritos, onde ele demonstrava enorme insatisfação com nossas atitudes – minhas e dos meus irmãos. Ele escreveu que os filhos esquecem que os pais já tiveram 24, 18 e 14 anos (nossa provável idade na época) e que passaram pelos mesmos entraves. Lamentava que a experiência dos pais fosse tão ignorada e muito mal interpretada. Havia um tom de inconformidade e tristeza no texto.

"Dorme agora: é só o vento lá fora. / Quero colo / Vou fugir de casa / Posso dormir aqui com vocês? / Estou com medo, tive um pesadelo / Só vou voltar depois das três."

Eu tentei me lembrar do que andava aprontando aos 24 anos, mas creio que tamanha consternação, no meu caso, era porque eu tinha ido morar sozinha – depois de um casamento desfeito, seguido de muitos problemas com meu ex-marido, que veio a morrer num acidente na sequência. Esse fato (a morte), por razões que não vou explicitar agora, acabaram por me dar a liberdade de ir e vir que eu havia perdido, e eu decidira que queria voar o mais livremente que fosse possível – não que morando com meus pais houvesse algum tipo de cerceamento. Olhando em retrospectiva e sabendo tudo o que sei hoje, mais de vinte anos depois, sei que esse movimento foi absolutamente desnecessário – pra dizer o mínimo.

"Meu filho vai ter / Nome de santo / Quero o nome mais bonito."

Meu pai era um homem muito democrático – o que era curioso, já que meu avô era alemão e sempre escutei que sua educação fora bastante rígida. Ele não intervinha – a não ser que fosse caso de vida ou morte. Ele conversava, discutia soluções, apontava o caminho. Mas a escolha final era sempre nossa – e se a gente escolhia (e isso acontece com frequência à maioria dos filhos) seguir por caminhos errados, era possível sentir seus olhos observadores e desolados, mas sempre silenciosos. Ele dava as costas e seguia em frente. Quando (e se) algo desse errado, ele nos acolhia de volta sem questionamentos nem alegações. Ele (e também minha mãe) não cobrava explicações, nem ficava remoendo o assunto: apenas nos acolhia de volta – o que era sempre um alívio.

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã / Porque se você parar pra pensar, /Na verdade não há."

Não tive filhos. Minha experiência nesse campo dá conta de acompanhar a trajetória de filhos gerados por outras mulheres – que amo como se fossem meus, mas de cuja educação não participei. E se hoje tenho uma posição que me permite algum tipo de orientação a esses filhos (e netos), uso sempre do bom senso legado pelo meu pai: se ele, pai legítimo, não interferia, que direito tenho eu, madrasta, de o fazer? E sendo a pa/maternidade uma tarefa tão árdua, considero injusto com meu marido e as mães de seus filhos que eu tenha outra atitude que não essa. Seja como for, diz a sabedoria popular que quando você tem filhos – e aqui cabe a expressão ‘seus ou alheios’ – consegue entender e até perdoar os seus pais – por excesso ou omissão, de acordo com seu julgamento e trilha pessoal.

"Me diz por que o céu é azul / Me explica a grande fúria do mundo / São meus filhos que tomam conta de mim / Eu moro com a minha mãe, mas meu pai vem me visitar / Eu moro na rua, não tenho ninguém / Eu moro em qualquer lugar / Já morei em tanta casa que nem me lembro mais / Eu moro com meus pais."

Essas memórias e observações vieram-me à tona porque essa semana a canção ‘Pais e Filhos’, de Renato Russo, vem ecoando dentro de mim – e curiosamente, ontem, no final da tarde, quando entrei no Hortifruti, a música tocava nos alto-falantes. Todos os dias eu me lembro do meu pai, mas essa é sempre uma semana dolorosa, como se tudo acontecesse de novo, todos os anos. A saudade, que é sempre presente, parece que fica mais latente – e sempre vem acompanhada de uma quase pena por não ter compreendido melhor o meu adorado pai, que (como todos os pais) tinha tanto a ensinar e a quem a vida deu tão pouco tempo pra que eu pudesse dele aprender…

"Sou a gota d'água / Sou um grão de areia / Você me diz que seus pais não te entendem / Mas você não entende seus pais. / Você culpa seus pais por tudo / Isso é absurdo / São crianças como você. / O que você vai ser / Quando você crescer. "

Pais e Filhos / Letra: Renato Russo
Musica: Dado Villa-Lobos, Renato Russo e Marcelo Bonfá

Débora Böttcher

Débora Böttcher

Formada em Letras, com especialização em Literatura Infantil e Produção de Textos. Participou do livro de coletâneas "Acaba Não, Mundo", do site "Crônica do Dia", onde escreveu por 10 anos. Publicou artigos em vários jornais. Trabalha com arte visual/mídias. Também administra o Portal Feminino Estilo [Mulher] 40 [www.estilo40.com]

2 Comentários

  • Oi Débora, entrei aqui por causa de um comentário, li sua crônica e achei tão sincero seu relato sobre seu pai que queria dizer: você teve um pai muito bacana e aposto que ele ia gostar bastante de ler essa crônica (digo ‘bacana’ porque ele parecia ser muito compreensivo, ainda que se mostrasse triste diante de algumas decisões dos filhos…Isso é algo que admiro e na verdade, ‘invejo’, porque tive uma educação muito diferente e sofri muito – principalmente na adolescência – com o autoritarismo e a rigidez dos meus pais…Hoje nos damos bem, mas antigamente rsrs…). Mas só queria ‘dizer’ isso: acho que a saudade é que mantém algumas pessoas vivas na nossa memória e isso não deixa de ser um alento, apesar de tudo, né? beijo.

    • Ah, Ana, pois é: nós fomos criados livremente, meu pai era um libertário, nunca fomos reprimidos em nada. Ele era daquele tipo que aconselha, mas deixava a gente errar – e depois acolhia, sem julgamentos. Isso me fez uma pessoa livre. E ele era mesmo um homem bacana: alegre, divertido, de muito bom humor – pra tirá-lo do sério, só algo muito aborrecido mesmo (e ele raramente alterava o tom de voz, nem lembro de vê-lo gritando). Foi uma pena sua morte precoce, mas seu legado é mesmo um alento. A saudade, realmente, mantem as pessoas vivas. Um beijo, bonita. Obrigada pelas palavras tão carinhosas.

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