REFLEXÃ0

UM PADRE DESCONCERTANTE

Ana Claudia Vargas

Ana Claudia Vargas

Viver é uma experiência bem confusa, mas, por vezes, bacana (palavra inapropriada, mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã, mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer...
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Sobre um palco iluminado, um vistoso padre bonitão, de calças justas, botas e chapéu de cowboy norte-americano saracoteia todo animado. Enquanto transborda simpatia ao apresentar as atrações de seu programa semanal, ele também faz o que todos os apresentadores televisivos fazem: vende produtos tão diferentes quanto pílulas e colchões; abraça crianças e velhinhos, é aclamado por devotas de Nossa Senhora Aparecida e vende seu livro. Na plateia do tal programa, caravanas de todo o país formadas por pessoas tipicamente interioranas de todas as idades erguem faixas com os nomes de suas cidades enquanto gritam o nome do padre alucinadamente como se ele fosse uma estrela do rock’.

Sim, eu sei que há muitos anos certa banda gaúcha já alardeava que o papa era pop, então, um padre ser pop não é novidade nenhuma, mas ainda assim, causa bastante estranhamento ver um padre tão moderno, vaidoso e confortável em suas roupas justas de cowboy norte-americano (vejam: ele não se veste como um caipira brasileiro ou um rapaz bem nascido do interior, um fazendeiro brasileiro; não; ele usa roupas de cowboy norte-americano e isso pode dizer muito sobre algumas coisas que eu, infelizmente, não tenho capacidade de analisar).

Antiga gravura inglesa mostra árvore que representa a igreja católica (fonte: Wikicommns).

Antiga gravura inglesa mostra árvore que representa a igreja católica (fonte: Wikicommns).

Eu que não sou socióloga, antropóloga ou psicóloga, sou apenas uma profissional do jornalismo que como sabemos é uma profissão ultimamente, bastante mal vista, tento analisar esse tipo de ‘fenômeno cultural” tentando somente não esbarrar nos limites impostos por julgamentos precipitados ou pré-conceituosos.

Tomando essas precauções então, é que vejo esse padre como sendo somente uma das muitas faces da grande confusão ideológica desse nosso começo de século: tudo o mais está em fragmentação – a política (agora há esquerda e direita, centro-esquerda e direita afinada com a esquerda: isso não seria uma anarquia não institucionalizada? ) a questão de gênero (você sabe que agora não há somente homens e mulheres; há muitas nuances de gêneros sexuais humanos em ebulição e sabe-se lá o que virá por aí) – então que mal há em que apareça um padre assim tão diferente daqueles que rezavam missas de forma respeitosa e compungida?

Um padre todo feliz e animado, vestido (você já sabe como); um padre que também canta aquelas ‘pérolas’ da pior música sertaneja que sempre ‘cheiram ‘ a botecos de beira de estrada, traições, cervejas quentes e fuscões pretos (credo!).

Ou seja: um padre, no mínimo, desconcertante e que veio (como dizem os mais jovens) para ‘causar’; um padre que deve ter sido construído pelo departamento de marketing de algum empresário ‘bem intencionado’ do tipo que constrói as anitas e lexas da vida, um padre que ‘seduz’ velhinhas e mocinhas e finge não perceber isso.

O que pensar de um padre assim? Um padre que num minuto vende pílulas da longevidade (?) e no outro, reza uma ave-maria; que recebe cantores mirins e os despacha como se fosse aquele apresentador dominical de certa rede de TV e depois olha para a câmera, candidamente, e diz ‘não desligue sua TV porque logo mais teremos a benção da família…’.

Acho esse padre uma ‘figura’ bastante interessante, um representante típico – como já disse – do nosso louco começo de século; mas como os fieis do catolicismo também estão mais perdidos e confusos do que tudo e estão ansiosos por uma luz divina que os faça aceitarem coisas como homossexualidade, divórcio, entre outras ‘modernidades ‘… pois num cenário assim, talvez a existência de um padre tão jovial e modernoso, seja, sim, uma forma de resgatar a fé, pois Deus – que para mim não precisa de religiões pois prescinde delas – está muito além de quaisquer julgamentos humanos e minha visão humanamente limitada está assumidamente, fadada a fracassar e ponto.

Mas, ao mesmo tempo – sempre tem um ‘mas’ –, um padre assim tão confortável no papel de apresentador, cantor, ‘marqueteiro’, tão carregado de emoções humanas imperfeitas também contribui bastante para distorcer e confundir aqueles que achavam (ou acham) que Deus combina com ideias (e ideais) que se afinam (por exemplo) com o silêncio, a quietude, com filosofias de vida que pregam a preservação da flora e da fauna (como sabemos, cowboys gostam de rodeios e em rodeios animais são maltratados), o respeito (se ele canta músicas que falam de traições e/ou adultérios isso não parece ‘estranho’ quando sabemos que o catolicismo ainda é muito conservador em alguns aspectos, inclusive naquele que impede que padres se casem?)

Para finalizar: apesar de nunca ter encontrado Deus no catolicismo; eu quase o encontrava nas igrejas vazias, no canto sincero dos corais litúrgicos, na face enrugada de um padre bondoso do qual me lembro até hoje, no rosto daqueles que verdadeiramente, pareciam tê-lo encontrado e mostravam isso agindo com equilíbrio e calma mesmo nas situações mais enervantes. É por isso que um padre que parece tão à vontade em um ‘mundo’ que representa tantos desequilíbrios emocionais e que parece, inclusive, fartar-se desse desequilíbrio e que se assemelha mesmo a um desses cantores do tal ‘sertanejo universitário’ que alimentam e são alimentados pelo fanatismo que despertam e que – como sabemos – tem sua origem em ‘coisas’ como vaidade, luxúria, sedução, sensualidade…

Pois, um padre assim não deveria deixar os fieis mais confusos e perdidos? Mas não: é o contrário disso que ocorre e, então, eu não sei se isso é bom, ruim ou simplesmente a confirmação de quão perdidos estamos todos nós – inclusive aqueles que pareciam imunes às imperfeições mundanas: os religiosos, aqueles que aparentam estar mais próximos de Deus.

No meio de tantas perguntas sem resposta há só uma coisa exata e tão brilhante como o sol arregalado desse começo de primavera: a religião e tudo o que ela representa(va) deixou órfãos até aqueles que se refugiavam em seus conceitos e perdidos estaremos todos se acharmos que ela ainda pode explicar Deus (que felizmente, existe para além dela).

Ana Claudia Vargas

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Viver é uma experiência bem confusa, mas, por vezes, bacana (palavra inapropriada, mas não achei outra melhor) e escrever é só uma tentativa (vã, mas necessária) de organizar 'tudo' no cérebro: é isso que, humildemente, tento fazer...

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